Paraná registra aumento de 25% nas ocorrências de violência doméstica


 O Paraná registrou um aumento de 24,6% nas ocorrências de violência doméstica no primeiro semestre de 2019 em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pelo Governo do Estado. Foram 26.288 casos neste ano, contra 21.048 nos seis primeiros meses de 2018.

De acordo com o Governo, as ocorrências incluem desde agressão verbal até lesão corporal, contra ambos os sexos, sempre em ambiente doméstico.
“A violência doméstica acontece em uma relação de pai e filha, de avô e neta. Mas, ainda, a grande maioria dos casos se refere ao relacionamento íntimo: o namoro, a união estável, o casamento”, afirma a delegada Eliete Aparecida Kovalhuk, responsável pela Delegacia da Mulher de Curitiba.
Apesar do aumento de casos, os números são considerados positivos pela Coordenadoria das Delegacias da Mulher (Codem), por demonstrarem que as vítimas têm buscado mais ajuda.

Os xingamentos ferem a honra da vítima e também são considerados crimes. "Os primeiros sinais de agressão são mais tênues. Vai começar com um xingamento, com uma humilhação, e isso vai, moralmente, deixar a vítima abalada", afirma a delegada Eliete Kovalhuk — Foto: Debora Kais
A violência contra a mulher
Apesar de agressões físicas serem os principais motivos que levam mulheres a denunciar, a Lei Maria da Penha, que nesta quarta-feira (7) completa 13 anos de sua sanção, em 2006, também prevê outras quatro formas de violência: psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Ameaças também são consideradas um tipo de violência contra a mulher. "Ameaça é um crime que já tem um grau de gravidade maior", explica a delegada Eliete Kovalhuk — Foto: Debora Kais
“Criminalmente falando, os primeiros sinais de agressão são mais tênues. Vai começar com um xingamento, com uma humilhação, e isso vai, moralmente, deixar a vítima abalada”, explica Kovalhuk.
No ciclo da violência contra a mulher, normalmente, os xingamentos passam a ameaças.
“Às vezes ameaça de agressão, às vezes ameaça até de morte. Aí parte-se então pra agressão física. Uma agressão física inicial que não deixa marcas, até uma agressão mais violenta, e daí vai culminar no feminicídio”, pontua a delegada.
Kovalhuk afirma que, até a criação da Lei Maria da Penha, as mulheres não eram amparadas pelo poder público.
“Então vingava aquele jargão de que briga de marido e mulher não se mete a colher. Essa violência não saía de dentro de casa. Só que o nível, a quantidade, o volume de violência é tão grande, que justamente, a gente precisou dessa lei para que todo o aparato estatal, todo o aparato de saúde pública acordasse pra ver que isso é um problema grave”, detalha a delegada.
Marcas
Segundo a delegada Eliete Kovalhuk, uma das marcas do crime de ódio contra a mulher é atingi-la na sua feminilidade e imagem.
“A mulher se cuida por natureza, ela é vaidosa... ela procurar preservar principalmente a região do rosto, do colo, e o homem, principalmente o homem, quando tem ódio da mulher, o que ele vai procurar atingir? Essas partes que ela mais preserva”, diz.
“Um caso que a gente tem aqui, de uma situação real que aconteceu. O agressor chegou a agredi-la fisicamente, golpeando-a no lado esquerdo do rosto, com uma caneta, com golpes de caneta. E depois a ameaçou de morte, quebrando uma garrafa de vidro, e apontando o gargalo dizendo: "Vou te matar, você não vai ficar mais com esse rosto bonito. Você não vai ficar com mais ninguém", descreveu a delegada.

"Uma das marcas do crime de ódio contra a mulher é atingir ela na sua feminilidade na sua vaidade", diz a delegada Eliete Kovalhuk — Foto: Debora Kais
Casa da Mulher Brasileira de Curitiba
Em Curitiba, a Casa da Mulher Brasileira (CMB) – que fica na Avenida Paraná, nº 870, no bairro Cabral – concentra uma série de serviços para dar apoio e orientação para mulheres vítimas de violência, como assistência psicológica, Defensoria Pública, Juizado Especial, Delegacia da Mulher e Patrulha Maria da Penha.
“Aqui, a Casa da Mulher [Brasileira], onde a Delegacia da Mulher [de Curitiba] está hoje, ela funciona 24 horas. O momento [de denunciar] é a partir do momento em que ela se sentiu humilhada, ultrajada na sua intimidade”, diz a delegada.
Segundo Sandra Praddo, coordenadora da CMB, o número de atendimentos aumentou muito desde que a Delegacia da Mulher começou a funcionar no local.
“Nós tivemos no mês de fevereiro, sem a delegacia, 1.020 atendimentos a mulheres em situação de violência. Em abril, após a Delegacia da Mulher estar aqui, nós tivemos 2.060 atendimentos. Isso é muito importante para que essa mulher, num único espaço, encontre todos esses serviços. Isso é o que faz do nosso trabalho ser efetivo para essa mulher, para essa procura dessa mulher”, detalhou.
Praddo conta que, em alguns casos, a mulher está sofrendo violência há anos, mas, por falta de conhecimento, não procura ajuda.
“Às vezes, ela está sofrendo há 10 anos violência moral, psicológica, sexual , patrimonial, sem se dar conta. Ela só vai se dar conta quando ela sofre a primeira lesão física. Aí ela vem procurar ajuda”, explica.
A coordenadora da CMB diz que o primeiro passo da mulher em busca de orientação pode ser dado na CMB, ou mais perto de casa, em um Centro de Referência de Assistência Social (Cras), em Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) ou uma Unidade de Saúde.
A agressão psicólógica é um dos tipos de violência contra a mulher previsto pela Lei Maria da Penha. "Às vezes ela está sofrendo há 10 anos violência moral, psicológica, sexual , patrimonial, sem se dar conta. Ela só vai se dar conta quando ela sofre a primeira lesão física. Aí ela vem procurar ajuda", diz Sandra Praddo, coordenadora da Casa da Mulher Brasileira de Curitiba 

“Para que ela se enxergue ali naquelas violências tipificadas na Lei Maria da Penha, que são a violência física, violência sexual, patrimonial, moral e psicológica”, detalha Praddo.
“Todas as mulheres que sofrem violência devem procurar [ajuda]. Não é humilhação, não é constrangimento”, afirma a delegada Eliete Kovalhuk.
A coordenadora da CMB acredita que a orientação pode levar a uma libertação do ciclo da violência. “Sabemos que é um grande passo, é um ato de coragem a mulher denunciar”, diz.
As mulheres que procurarem apoio na CMB terão à disposição um alojamento, onde podem ficar por um prazo de até 48 horas, caso estejam correndo algum tipo de risco, até conseguir uma medida protetiva e encaminhamento para outro local.
Praddo afirma que as vítimas são recebidas no local de braços abertos e que toda a família será acolhida, incluindo animais de estimação que, segundo a coordenadora, também acabam sendo vítimas de agressões.
“Se a mulher vier pra cá, eu vou alojar a calopsita dela, eu vou alojar o gatinho. Do mesmo jeito que eu vou alojar toda a família dela. Todos eles estão em risco. Então eu acho muito importante”, garante Praddo.
Ilustrações
Para a maioria das mulheres é muito difícil dar o primeiro passo e denunciar o seu agressor. Por vergonha ou por medo, muitas mulheres preferem não falar. Por isso, para preservar essas vítimas, nenhuma delas foi entrevistada.
Para mostrar um pouco a história de cada uma, convidamos a ilustradora Debora Kais, de 17 anos – que acompanhou as entrevistas para a produção dessa reportagem – para que ela fizesse alguns desenhos retratando as histórias que ouviu.
A ilustradora disse que ficou tocada pelos relatos e que tentou colocar na sua arte o sentimento das mulheres vítimas de violência.
“Eu busquei me colocar no lugar dessas mulheres e sentir mesmo tudo o que elas podem ter sentido: a culpa, o medo, querer proteger os filhos. Eu sempre me coloco assim no lugar, quando eu vou representar alguma coisa. E me tocou bastante, por isso eu coloquei bastante sentimento nos desenhos”, descreveu.

"Todas as mulheres que sofrem violência devem procurar [ajuda]. Não é humilhação, não é constrangimento", diz a delegada Eliete Kovalhuk — Foto: Debora Kais
Kais lembrou o fato relatado por Sandra Praddo, coordenadora da CMB, de que de 38 mil atendimentos feitos em diversos serviços da Casa, no período de três anos, nenhum caso chegou ao feminicídio.
“Eu fiquei feliz que todas as mulheres que passaram por lá não foram vítimas de feminicídio. Todas conseguiram sair dessa. Eu fico muito feliz pela vida de todas as mulheres, por que elas ainda estão aqui, fortes, pra contar essa história de superação”, afirmou.
“Como a entrevista não teve as vítimas, eu tentei representá-las e passar coragem. Depois de todo o sufoco, passar um pouco de esperança”, finalizou.
Onde procurar ajuda em outras cidades do estado
As mulheres vítimas de qualquer tipo de violência podem procurar por orientação em uma das 20 Delegacias da Mulher distribuídas pelo estado. Quem mora em uma cidade onde não existe delegacia especializada deve procurar uma Delegacia da Polícia Civil, ou ainda pode fazer denúncias pelos telefones 181 ou 180.
Em casos de urgências e emergência, a orientação é procurar a Polícia Militar, pelo 190.

Fonte: G1 Pr - Postado em 07/08/2019



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