Vaticano cogita padres indígenas casados para aumentar presença na Amazônia


Na busca por se restabelecer na Amazônia, hoje em grande parte terreno dos evangélicos, a Santa Sé sabe que precisa promover uma mudança profunda na forma que a Igreja atua na região. O plano prevê desde a criação de rádios comunitárias em línguas locais, tradução de Bíblias, dar maior protagonismo aos atores locais e até incorporar a narrativa indígena para passar o evangelho.

Mas um dos principais debates se refere à falta de padres que possam atuar por toda a Amazônia. Uma das sugestões recolhidas e que está no debate é a flexibilização das regras para permitir que pessoas, mesmo casadas, possam assumir as funções de um religioso.
A ideia é de que a Igreja deixe de ser uma instituição "que visita" para se transformar em uma "igreja que permanece"
No que se refere aos sacramentos, pede-se para "superar a rigidez de uma disciplina que exclui e aliena, em prol de uma sensibilidade pastoral que acompanha e integra". Para isso, porém, será necessário encontrar ministros provenientes dos próprios habitantes da região.
"Afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã", defende o documento.
"Por falta de sacerdotes, as comunidades têm dificuldade de celebrar com frequência a Eucaristia. Por isso, pede-se que, em vez de deixar as comunidades sem a Eucaristia, se alterem os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la", dizem os textos oficiais.
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"Concorrência"
O esforço não ocorre por acaso. Nos documentos do sínodo, o Vaticano deixa claro que "no meio da floresta amazônica há outros grupos presentes ao lado dos mais pobres, realizando uma obra de evangelização e de educação".
"São muito atraentes para os povos, embora não valorizem positivamente suas culturas. Sua presença permitiu-lhes ensinar e divulgar a Bíblia traduzida nas línguas autóctones. Em grande parte, estes movimentos se propagaram por causa da ausência de ministros católicos", admitem os textos.
"Seus pastores formaram pequenas comunidades com rosto humano, onde os indivíduos se sentem valorizados pessoalmente. Outro fator positivo é a presença local, próxima e concreta dos pastores que visitam, acompanham, consolam, conhecem e rezam pelas necessidades reais das famílias. Trata-se de pessoas como as outras, fáceis de encontrar, que vivem os mesmos problemas e se tornam "mais próximas" e menos "diferentes" para o resto da comunidade", constatam.
"Elas nos mostram outro modo de ser Igreja, onde o povo se sente protagonista, onde os fiéis podem expressar-se livremente, sem censuras, dogmatismos, nem disciplinas rituais", destacam.
Não por acaso, o Vaticano reivindica hoje um "rosto amazônico da Igreja". "Precisamos que os povos indígenas plasmem culturalmente as Igrejas locais amazônicas", declarou o papa Francisco. Mas eles admitem que o futuro da Igreja na Amazônia "requer propostas valentes", o que supõe coragem e paixão".
Uma dessas medidas passa por superar a persistiria de uma "mentalidade colonial", "deixar atrás de si uma tradição colonial monocultural, clericalista e impositiva" e assumir um papel que "sabe discernir e assumir sem medo as diversificadas expressões culturais dos povos".
Também é recomendado que rádios e televisões sejam estabelecidas, nas próprias línguas locais e com protagonistas indígenas. Esses meios de comunicação teriam de promover "o Evangelho e das culturas, tradições e línguas originárias"
A ideia, no fundo, é a de que a Igreja esteja "onde ninguém quer estar e com quantos ninguém quer estar".

Fonte: Uol - Postado em 01/09/2019



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