Mãe jovem e vítima de um relacionamento abusivo. Assim somos apresentados à Alex (Margaret Qualley), personagem principal da série Maid, que figura entre as 10 mais assistidas da Netflix Brasil, nas últimas semanas. Sem dar spoilers, a trama é baseada em uma história real, que mostra os percalços pelos quais uma mãe passa ao sair de uma relação marcada pela violência psicológica. rnrnrnEmbora seja uma obra ficcional (com inspiração real), as cenas vivenciadas por Alex se aproximam assustadoramente da realidade de milhares de mulheres. Tanto é que, este ano, foi sancionada uma lei que transformou em crime a violência psicológica contra a mulher. rnrnrnReconhecer esse tipo de agressão, no entanto, ainda é um desafio para as mulheres, as pessoas que vivem no seu entorno, e, até mesmo por quem deveria oferecer suporte, como alguns serviços públicos. rnrn”A violência psicológica, muitas vezes, não deixa marcas físicas. A mulher tem dificuldade de compreender que está sofrendo” — argumenta a advogada Mariana Regis, especializada em direto das famílias com perspectiva de gênero. rnrnrnAinda assim, a especialista, que tem 16 anos de experiência, diz que não raro atende mulheres que amargam marcas físicas impostas pela violência psicológica como, por exemplo, o desenvolvimento de doenças autoimunes, alergias, perda ou ganho de peso. rnrnrnA psicóloga clínica Iramaia Ranai Gallerani, que é pós-graduada em impactos da violência na saúde, explica que esse tipo de agressão é aquele que desqualifica a mulher e coloca em dúvida sua sanidade mental. rnrn— A autoestima é inferiorizada até que ela acredite que não poderia fazer escolhas. Há dependência emocional. Hoje, a violência psicológica ainda não é reconhecida e há descrédito dos amigos, da família. O que vemos na série é “o que vivo não é violência, tem mulheres que apanham”. As próprias mulheres colocam essas agressões como suportáveis — detalha. rnrnrnA seguir, elencamos alguns pontos de Maid que chamam a atenção em relação às mulheres que vivem nessas condições.rnrnrnrn(Atenção, alerta de spoiler a seguir).rnrnrnrn1) Desconhecimento rnrnrnDepois de sair de casa no meio da madrugada, Alex busca um serviço social atrás de algum benefício que garanta a ela e a pequena Maddy (Rylea Nevaeh Whittet) um teto e alimentação. Quando relata à assistente social que fugiu de casa por medo do companheiro Sean (Nick Robinson), a profissional rebate questionando se a jovem fez um boletim de ocorrência. Por desconhecer a violência psicológica, Alex diz que não, pois nunca foi agredida pelo ex. Ela também diz que não quer ser encaminhada para um abrigo destinado a vítimas de violência doméstica, pois “detestaria tirar a vaga de alguém que sofreu agressão “de verdade”. rnrnrnJustamente por não deixar marcas físicas na maioria dos casos, ainda é difícil reconhecer que se é ou foi vítima desse tipo de violência, diz Mariana. A especialista acredita que é muito difícil para as mulheres se reconhecerem nesse lugar de pessoa que sofreu violência. rnrnrn— Muitas sentem vergonha. Hoje, várias mulheres já chegam conscientes que estão sofrendo violência psicológica , mas há muitas que não reconhecem e dizem: “Mas ele nunca me bateu” — exemplifica a advogada. rnrnrn2) Controle rnrnrnNo desenrolar da trama, em meio a uma infinidade de perrengues, Alex fala para a mãe, Paula (Andie MacDowell), que precisou abrir uma conta, pois, até então, vivia da renda do ex-companheiro e teve seu cartão de crédito confiscado. rnrnrnA violência patrimonial, explica a psicóloga, é um tipo de abuso que costuma acompanhar a violência psicológica. rnrnrnrnrn— Elas acontecem de forma combinada, dificilmente vêm separadas. A subtração de bens, como carro, ou outros meios que a mulher tem para sobreviver, é uma forma de violência patrimonial — fala a especialista.rnrn3) Transgeracionalidade rnrnrnAlex tem uma relação conturbada com o seu pai, Hank (Billy Burke), no entanto, os motivos para isso não são claros até determinado ponto da série. Durante uma faxina, a jovem entra em um sótão escuro, onde começa a ter lembranças da infância. Junto das memórias, Alex tem uma crise de pânico, mas não entende o porquê. Na tentativa de buscar respostas para o mal-estar, ela retorna para o sótão, onde, finalmente, consegue acessar antigas lembranças de quando se escondia em um armário da cozinha para não presenciar o pai agredindo a mãe. rnrnrn— Essa questão vem sendo naturalizada. Se eu vi minha mãe sofrendo aquilo, vou entender que é permitido, que é natural. Mas isso precisa ser mudado — reforça Iramaia. rnrnrnMariana conta que, na sua atuação, boa parte das mulheres que são vítimas hoje, também testemunhou agressões às suas mães no passado. Por esse motivo, muitas vezes elas são desacreditadas pela família quando resolvem romper o ciclo: rnrnrn— As mães não conseguem ver e não apoiam. Tenho clientes que, com na série, o pai não ajuda porque também era um abusador.rnrnrnrn4) Naturalização rnrnrnA violência é naturalizada em diversos momentos da série. Desde os amigos do ex-casal até a mãe da jovem, que minimiza as agressões que sofria do pai da menina. Quando é perguntada pela filha se o ex-marido a batia muito, Paula se limita a dizer: “Sei lá, eu não penso nessas coisas. Gosto de pensar em seguir em frente”. rnrnrnA violência de gênero contra a mulher ainda é pautada em uma série de ideias e estereótipos do que é ser do sexo feminino, destaca Iramaia, acrescentando que a sociedade ainda é muito machista e vê o homem como o forte, superior. Ao sexo feminino, sobra o papel de frágil e submissa. rnrnrn— Muitas crescem entendendo que é normal homem gritar, ficar irritado e dar soco na parede, quebrar coisas — complementa Mariana. rnrnrnrnrnrnrn5) Rede de apoio rnrnrnTão fundamental quanto denunciar esse tipo de violência é buscar apoio em pessoas próximas em quem se tem confiança. Na série, Alex não consegue contar com essa ajuda, ficando refém dos auxílios do governo e de alguma ajuda esporádica dos seus pais. rnrnrnA advogada defende que, antes mesmo de fazer uma notificação em uma delegacia, as mulheres recorram às suas famílias ou amigos íntimos para buscar se fortalecer antes de iniciar um embate. rnrnrn— Se possível, ter um acompanhamento psicológico também, pois é preciso fortalecer essa mulher. Elas estão muito “quebradas” e não encontram forças para sustentar o processo em um judiciário machista, no qual é difícil conseguir o reconhecimento desse tipo de crime. rnrnrnAo fazer a notificação em uma delegacia, Mariana sugere que se tenha acompanhamento de uma advogada ou defensoria pública. rnrnrn— Embora ela possa fazer a notificação sozinha, recebo relatos de que muitas mulheres são desestimuladas. Sei de vários delegados que orientam mulheres a não registrarem ocorrência — lamenta. rnrnrnrnrnrnrnOnde pedir ajuda rnrnrnEmergências: 190 (Brigada Militar)rnDisque-Denúncia: 181rnDenúncia Digital 181: http://www.181.pr.gov.br/rnCentral de Atendimento à Mulher: 180rnDelegacia Online: https://www.policiacivil.pr.gov.br/BOrnrnrnrnrn
Fonte: GauchaZH

























