- ROBERTO BONDARIK
Há 95 anos o Paraná foi palco dos acontecimentos que deram início a toda uma nova era na história do Brasil: a Era Vargas. Assumia o poder a figura mais emblemática de todo nosso período republicano.
Em 24 de outubro de 1930 terminava, com a deposição do Presidente Whashington Luís, a República Velha. Tomava corpo um Brasil mais urbano, focado na industrialização, que buscava modernizar-se tanto no conteúdo quanto em sua forma.
Em 1930 insurgiram-se contra o sistema político de então, a República do Café-Com-Leite, as oligarquias de três estados da Federação: Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. Os três apoiavam a chapa que foi derrotada nas urnas, a Aliança Liberal e seus candidatos Getúlio Vargas do Rio Grande do Sul e João Pessoa da Paraíba. O paraibano foi assassinado em julho daquele ano dentro de uma trama que envolveu conflitos políticos locais, interesses nacionais e rivalidades pessoais. Sua morte fez com que se organizassem movimentos nos três estados, organizaram-se os políticos e os rebeldes tenentistas foram convencidos a participar das ações para a tomada do poder.
Isolado do restante do País, em uma época em que não havia ainda rodovias ou veículos de transporte pesado, o Rio Grande do Sul e suas forças insurgentes contavam apenas com a Ferrovia São Paulo – Rio Grande, de bitola estreita para se transportarem até São Paulo, estado garantidor político e militar do Governo Federal. A Marinha de Guerra se manteve fiel à legalidade, seus navios transportaram fuzileiros navais até São Francisco do Sul e Joinville em uma tentativa de romper o avanço pela linha férrea no interior catarinense. Neste contesto logístico coube ao Paraná servir de palco às ações que levaram a vitória ou da Revolução. A importância paranaense se assemelhou àquela desempenhada pela Bélgica quando das duas Grandes Guerras Mundiais, em 1914 e 1939. Porém o Paraná não era as Ardenas e nem os gaúchos eram o exército alemão.
Iniciada ao findar da tarde de 03 de outubro de 1930, a Revolução apoiada pelo Governo do Rio Grande do Sul tomou conta de todas as unidades daquele estado em menos de três dias. Brigada Militar tomou de assalto o Quartel General do Exército em Porto Alegre, houve combates e mortes. Planejada secretamente desde o dia seguinte à morte de João Pessoa, o movimento militar era comandado por Miguel Costa, oficial rebelde que fizera carreira na Força Pública de São Paulo. Havia pressa em levar a Revolução para fora do Rio Grande antes que o Governo Federal, a Legalidade, se organizasse e reagisse ao movimento. De surpresa e sem alardes, antecipando-se aos ataques em Porto Alegre, às doze horas daquele dia uma coluna armada invadiu Santa Catarina, seguindo pela ferrovia sem sobressaltos até o Rio Iguaçu.
Com poucas armas e munição insuficiente o trem vanguardeiro, comandado por Trajano Marinho, capitão brigadiano, buscou por depósitos de suprimentos bélicos em quarteis da polícia catarinense e junto a chefes políticos republicanos que se precaviam justamente para enfrentar a Revolução que sabiam, aconteceria em breve. Suas táticas lembraram as da Cavalaria Confederada na Guerra Civil norte-americana do século XIX e por sua vez assimiladas pela Wermacht alemã com o nome de “Britzkrieg”: a Guerra relâmpago. Para evitar curiosos nas estações que iam tomando, avisam os chefes das que estavam a frente que seu comboio transportava suínos, cujo cheiro era insuportável e, portanto, evitável nas diversas paradas. Assim atingiram, sem percalços graves Porto União e União da Vitória.
Organizados previamente por oficiais tenentisas, militares rebeldes revoltaram e tomaram o controle das unidades do Exército no Paraná: primeiro em União da Vitória, seguido do 13º RI em Ponta Grossa, no dia 04 à tarde, e Curitiba em 05 de outubro. O Regimento de Cavalaria de Castro permaneceu fiel e todo ele se retirou para Itararé em São Paulo.
O presidente do Estado, Afonso Camargo fugiu para Cananeia, o Paraná aderiu a Revolução diminuindo, conforme planejara-se, o tempo que se imaginava teria a guerra civil, talvez cerca de três meses. Após chefes oposicionistas e fazendeiros locais, homens do Major Infante Vieira de Jacarezinho, garantirem o controle sobre Jaguariaiva atacando o destacamento da Polícia e o prédio da Prefeitura, os rebeldes paranaenses avançaram em direção a Itararé. A vanguarda gaúcha, agora municiada e bem armada chegada na sequência seguiu pelo Norte Pioneiro, o Ramal Ferroviário do Paranapanema. Na região os cafeicultores de Ribeirão Claro, Jacarezinho, Santo Antonio da Platina e Cambará já haviam organizado seu apoio moral, político e material ao movimento. Em Ibaiti, Tomazina e Wenceslau Braz podem ter ocorrido os primeiros movimentos vitoriosos dos rebeldes garantindo o avanço das tropas vindas do Sul. Paulo Chueiri, chefe aliancista na Colônia Mineira chefiou o movimento armado que prendeu os chefes políticos e funcionários do governo que poderiam reagir.
Os Governos Federal e de São Paulo reagiram, as tropas do Exército que faziam uma guerra simulada em Indaiatuba, Itu e Campinas foram enviadas, desta vez para uma ação real e de verdade, para as divisas do Paraná com aquele estado. Tomaram posição e ao estilo de guerra francês, escavaram trincheiras, construíram ninhos de metralhadora, estabeleceram posições de artilharia e, esperaram os rebeldes chegar: eles vieram em dezenas de composições ferroviárias: primeiro os paranaenses do 13º RI comandados por Ayrton Playsant e a cavalaria do Regimento de Segurança chefiados por Waldemar Kost.
Com o impasse e a resistência fortificada em Itararé, forças do Exército, da Força Pública e voluntários da Legião Paulista, em defesa da Legalidade, a partir de Ourinhos e Fartura, ocuparam as cidades do Norte Pioneiro: Cambará, Jacarezinho, Ribeirão Claro, Santo Antonio da Platina e Carlópolis. Houve tiroteio com mortes em Cambará, o engenheiro e cafeicultor Coriolano de Lima foi morto em Santo Antonio da Platina, os paulistas avançaram em direção a Colônia Mineira, queriam tomar a ferrovia São Paulo – Rio Grande nos Campos Gerais.
Em Joaquim Távora no dia 09 de outubro a Brigada Militar Gaúcha com um esquadrão de cavalaria, sem os cavalos, derrotou e capturou uma Companhia da Força Pública Paulista e se retirou para Quatiguá, então um ajuntado de casa no entorno da estação férrea. Em Quatiguá havia condições de defesa melhores até que chegassem reforços em grande número, vindos do Rio Grande do Sul. Reforçados, os paulistas avançaram ali sobre gaúchos, que a partir da alvorada do dia 12 de outubro, agora contavam com o Destacamento comandado por Alcides Etchegoyen. Este foi o primeiro destacamento pesado de combate que seguiu para o Paraná.
Transportado desde o Rio Grande do Sul por nove pesadas composições, por isso com um deslocamento lento e difícil, este destacamento era formado por soldados de diversos regimentos do Exército tirados de Porto Alegre, Santa Maria, Cruz Alta e Passo Fundo com destaque a Carta Geral e 7º RI. Havia ainda Brigada Militar com homens de Porto Alegre e do 2º Regimento de Cavalaria vindo de Santana do Livramento, na fronteira como Uruguai, estes comandados por Trajano Marinho e que haviam lutado em Joaquim Távora.
As tropas gaúchas eram formadas por infantes do Exército, cavalarianos da Brigada Militar e o 6º RAM transportado desde Cruz Alta, artilharia vinda com oito canhões de 75mm e uma companhia de morteiros e seções de metralhadora pesada. Em 12 e 13 de outubro naquele pedaço do Norte Pioneiro a guerra se fez presente, com o uso de metralhadoras, granadas, baterias de artilharias informadas por telegrafo desde a retaguarda, talvez lança-chamas. O combate iniciou as 16 horas de um dia e se encerrou as 11 horas do outro. Os gaúchos venceram, os paulistas se retiraram e queimaram as pontes e as balsas sobre os Rios Paranapanema e Itararé. Houve mortos de ambos os lados.
Os gaúchos do 7º RI cercaram a Força Pública, tomaram prisioneiros e equipamentos, automóveis e caminhões. Conquistaram muita munição, dez por cento do que os revolucionários possuíam até aquele momento. Partindo do Serro do Quatigual, os gaúchos avançaram por ente mata e cafezais até a atual rodovia PR-092, fecharam o cerco sobre um esquadrão de cavalaria paulista talvez onde hoje seja o lago. A comunicação entre as linhas paulistas se rompeu, a Legião Paulista debandou e o 4ºBC também. Seguiram pelo KM 25 em direção a Joaquim Tavora, Santo Antonio e Carlópolis. Mesmo tendo requisitado, tomado ou até roubado todos os cavalos disponíveis pelo caminho, até dos leiteiros, padeiros e funerárias, os gaúchos não tinham a cavalaria necessária para perseguir eliminar ou capturar os paulistas em fuga. Os paulistas eram transportados por caminhões e automóveis.
O combate foi moderno, comunicações por telegrafo, uso de trincheiras e artilharia. Manobras de movimento diferentes das que os franceses preconizavam por meio de sua Missão Militar de Treinamento desde o início da década de 1920. Não por isso deve ter sido menos violento. Metralhadoras sobre o telhado desmontado da estação férrea, morteiros, engajamento de funcionários da ferrovia como observadores, guias de tropas e combatentes. A Guerra se fez presente.
Os rebeldes tomaram todo o Norte Pioneiro, as tropas gaúchas se preparavam para invadir São Paulo, tomar o entroncamento ferroviário de Bauru e seguir ao Sul de Minas. O Rio de Janeiro era o objetivo final. Antes que mais sangue fosse derramado e que houvesse a tomada de Itararé, generais no Distrito Federal depuseram o Presidente e, depois, Getúlio Vargas assumiu o poder que, por breve interregno, exerceu até entrar em definitivo na história. No Norte Pioneiro do Paraná nos encontramos com a história do Brasil, uma memória em constante resgate e que nos honra por dela fazermos parte.

de Jacarezinho esperando invadir São Paulo

Militar da Força Publica, comandou os paulistas em Quatiguá.




Artilharia do 6º RAM em Quatiguá

OBS: Professor Roberto Bondarik busca pesquisadores para projetos de mestrado
O Professor Roberto Bondarik está em busca de professores e pesquisadores interessados em desenvolver projetos de mestrado nas áreas de História do Norte do Paraná e temas correlatos. A proposta visa fortalecer a pesquisa acadêmica regional, promovendo o estudo da formação histórica, social e cultural da região.
- ROBERTO BONDARIK – Pesquisador e Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Cornélio Procópio
JRDIARIO

























