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Pais cobram respostas após morte de criança de 9 anos em Wenceslau Braz; hospital abre investigação interna

A morte da pequena Sarah Melechenco Ferreira de Oliveira, de apenas 9 anos de idade, abalou a cidade de Wenceslau Braz, no Norte Pioneiro. Cercada por questionamentos e acusações de possível negligência médica, a tragédia agora é investigada pela Polícia Civil, que busca esclarecer as circunstâncias que levaram à morte da criança e apurar eventuais responsabilidades.

Sarah faleceu na manhã desta segunda-feira (15), no Hospital de Caridade São Sebastião. Cinco dias antes, na quarta-feira (10), ela havia sofrido uma queda de bicicleta, enquanto brincava na Vila Santa Madalena. O acidente, que incialmente provocou apenas algumas dores em Sarah, terminou na morte da menina, gerando forte comoção, tristeza e revolta na cidade.

Os pais da menina, Silmara Melechenco e Marcelo Ferreira de Oliveira, acreditam que houve falhas no atendimento médico prestado à filha, e agora buscam respostas e justiça. Com as investigações em andamento, a Associação Beneficente São Sebastião, responsável pela administração do hospital, informou que instaurou uma sindicância interna para apurar detalhadamente o caso e analisar a atuação de todos os profissionais envolvidos.

Nesta quarta-feira (17), os pais de Sarah procuraram a Folha para relatar sua versão dos fatos. A entidade responsável pelo hospital também encaminhou uma nota oficial à reportagem sobre o caso, e se dispôs para qualquer informação necessária para os devidos esclarecimentos.

Quatro idas ao hospital e um desfecho devastador: a cronologia dos últimos dias de Sarah

Em entrevista exclusiva à Folha, Silmara e Marcelo relataram os dias que antecederam a tragédia. Segundo os pais, Sarah sofreu uma queda de bicicleta na tarde de quarta-feira (10), enquanto brincava na rua. A menina, porém, não contou imediatamente sobre o acidente. Foi apenas na manhã seguinte, ao acordar sentindo fortes dores nas costas, que revelou o que havia acontecido. “Ela acordou com muita dor nas costas. Foi aí que perguntamos o que tinha acontecido, e ela contou que havia caído na rua”, relatou Marcelo.

Preocupado com o estado da filha, Marcelo levou Sarah imediatamente ao hospital após perceber que ela apresentava uma inclinação incomum na coluna e dificuldades para manter a postura. Segundo os pais, a menina nunca havia apresentado qualquer alteração semelhante antes da queda.

“A Sarah passaria pelo ortopedista na terça-feira (16/06), mas naquele dia às 13h, estávamos enterrando nossa filha”

Na unidade hospitalar, Sarah passou por um exame de raio-X. De acordo com o relato da família, a médica responsável pelo atendimento informou que não havia sinais de lesão relacionada ao acidente e atribuiu a alteração observada a um quadro de escoliose. “A médica disse que não tinha nada de errado com ela, apenas escoliose. Mas minha filha não tinha escoliose, as costas dela sempre foram retas. Ela insistiu que era algo de nascença e que não tinha nenhuma relação com a queda”, afirmou Silmara.

A profissional também receitou medicamentos para aliviar as dores da criança, e orientou Silmara que procurasse atendimento ortopédico. “A Sarah passaria pelo ortopedista na terça-feira (16/06), mas naquele dia às 13h, estávamos enterrando nossa filha”, contou a mãe em lágrimas.

Mesmo com os medicamentos, as dores não cessaram, e na manhã da sexta-feira (12), Silmara levou a filha novamente ao hospital. “Ela acordou com a coluna enrijecida e com muita dor. No hospital, apresentei o Raio-x para o médico, e relatei novamente tudo o que aconteceu, e que os medicamentos não estavam tendo efeito. Ele fez a avaliação, e disse que não havia nenhuma alteração significativa, e mandou a gente embora, dizendo que era para continuar aplicando os medicamentos e se caso não melhorasse, era para levar ela novamente”, lembra Silmara.

Vale ressaltar que este foi um médico diferente do primeiro atendimento. No total, Sarah passou por três profissionais, por conta dos plantões.

“Mal sabia que seria o último banho que daria nela, a última vez que pentearia seu cabelo”

Ainda na sexta-feira, Sarah apresentou melhora. No sábado (13), ela também permaneceu relativamente bem, ainda com a coluna enrijecida, segundo a mãe. Já na tarde do domingo (14), por volta das 15h, a menina já não conseguia se levantar sozinha, e voltou a sentir dores intensas na coluna.

“Fomos mais uma vez para o hospital. Deu trabalho para convencer ela a ir. Não queria ir de jeito nenhum. Aí eu consegui convencer ela, dei banho nela, mal sabia que seria o último banho que daria nela, a última vez que pentearia seu cabelo”, enfatizou Silmara.

Já em atendimento, na mão do terceiro profissional, a mãe relatou novamente todos os detalhes anteriores, e reparou que a respiração de Sarah estava mais curta do que o normal, mas a avaliação do médico não apontou alterações. “Colocaram ela para tomar soro, porque ela já não estava se alimentando normalmente, aplicaram uma injeção nela, e o médico deu alta para ela, e nos mandou mais uma vez para a casa”, lembra a mãe.

Porém, entre a madrugada e o amanhecer da segunda-feira (15), Sarah acordou com dores intensas e falas desconexas, o que fez com que os pais a levassem mais uma vez para o hospital. “Ela acordou por volta das 05h30, reclamando de dor e falando coisas sem nexo. Cerca de uma hora depois, notamos que as pernas dela estavam rígidas e o abdômen distendido”, contou o pai.

Marcelo contou que chegaram no hospital por volta das 07h, e a criança foi levada para uma sala de emergência. A saturação de Sarah começou a cair, e os médicos a colocaram sob oxigênio. Após estabilização inicial, os médicos realizaram um novo Raio-x em Sarah, e localizaram um líquido em seu pulmão. “Eles disseram que precisariam introduzir uma sonda nasal para drenar o líquido, mas depois falaram que não tinham o equipamento lá”, lembra.

O novo exame também mostrou que Sarah estava com obstrução no intestino, e que o seu intestino estaria pendendo para outro lado. “Foi muito estranho. No primeiro Raio-x não apareceu nada nela, e do nada, nesse segundo, tudo isso”, comentou Silmara.

“A temperatura dela caiu muito, e a glicose também. Aí os médicos começaram a aplicar soro quente para aumentar a temperatura, e a glicose também voltou ao normal”, lembra a mãe.

No entanto, o quadro de Sarah se agravou, e a equipe médica solicitou transferência de urgência para Londrina. Para a transferência, seria necessária uma ambulância UTI para leva-la até Santo Antônio da Platina, e posteriormente até Londrina. “Foram duas horas para chegar a ambulância, e quando chegou, chegou uma ambulância desequipada. Veio uma comum de Santana do Itararé, e não quiseram levar a Sarah pela gravidade do quadro”, contou Silmara.

A mãe relata que o hospital solicitou uma outra ambulância, que veio equipada e com a presença de uma médica de Santo Antônio da Platina. “Foram mais duas horas para chegar essa ambulância. A médica da equipe fez uma nova avaliação e notou que a coordenação motora da Sarah não estava respondendo corretamente. Ela também fez um ultrassom na Sarah, mas não apontou nada”, contou.

Pelo quadro delicado, Sarah poderia ser transferida apenas entubada. “No momento em que foram sedar ela para iniciar a entubação, eu fui lá, beijei a testa dela, e a vi pela última vez. Ela falava que queria ir embora, que não queria mais ficar ali no hospital”, disse Silmara.

Silmara e Marcelo foram retirados da sala, para que Sarah fosse entubada. Cerca de 15 minutos depois, uma movimentação médica chamou a atenção dos pais. “Estávamos em uma sala próxima à dela. Ouvimos os médicos pedindo ampolas e o desfibrilador. Na hora eu falei para ele (Marcelo) que a Sarah havia tido uma parada cardíaca. E foi isso mesmo”, lembra a mãe.

Depois de mais alguns minutos, a notícia da tragédia veio. “A médica chamou nós dois, e contou que a Sarah havia reagido bem no começo, mas que ela teve uma parada cardíaca. Os médicos disseram que fizeram de tudo por ela, mas ela não resistiu”, afirmou o pai.

“Se no primeiro dia, além do Raio-x, tivessem pedido algum outro exame, eu acredito que não teríamos enterrado minha filha ontem, não estaríamos passando por esse momento de dor e tristeza que não tem nem como explicar. Foram quatro idas ao hospital. Três médicos diferentes, e ninguém pediu um exame detalhado para saber o que estava acontecendo com a Sarah”, lamentou Silmara.

A Folha entrou em contato com a diretoria da Associação Beneficente São Sebastião, que afirmou ter instaurado sindicância interna para apuração detalhada do caso e análise da atuação de todos os profissionais envolvidos no atendimento prestado à Sarah.

“Nos reunimos com a família, e nos colocamos à disposição para ajudar nas investigações e esclarecer todas as dúvidas sobre o caso”, disse a administração da instituição hospitalar.

Leia a nota na íntegra:

A Diretoria da ASSOCIAÇÃO BENEFICENTE SÃO SEBASTIÃO (Hospital São Sebastião) vem a público esclarecer informações que vêm sendo divulgadas nas redes sociais acerca do falecimento de uma menor de 9 anos de idade, ocorrido em 15 de junho de 2026.  Diante dos fatos, foi instaurada sindicância interna para apuração detalhada do caso e análise da atuação de todos os profissionais envolvidos no atendimento prestado. Além disso, foi solicitado parecer técnico ao Diretor Técnico do Corpo Clínico, com o objetivo de subsidiar a adoção das medidas cabíveis, tanto na esfera administrativa quanto na judicial.  A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e a qualidade da assistência prestada à população, colocando-se à disposição para os esclarecimentos necessários, respeitados os limites legais e o sigilo das informações envolvidas. A instituição se solidariza com a família e reitera o compromisso de apoio neste momento de luto.

A reportagem da Folha segue acompanhando o caso, e trará novas informações.

Todas os detalhes contados pela família também estão registrados em boletim de ocorrência.

A família aguarda o laudo pericial do IML, que determinará a causa da morte.

JRDIARIO – COM INFORMAÇÕES FOLHA EXTRA

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