O Centenário da Estação Quatiguá no Ramal Ferroviário do Paranapanema (1923-2023)rn rn rnDr. Roberto Bondarikrn [email protected] e Pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Cornélio ProcópiornrnrnA convite do JRDiário, o professor Doutor Roberto Bondarik, escreveu sobre a estação ferroviária, hoje inexistente, que estaria fazendo o seu centenário neste sábado, dia 13. rn rn rnrnrnA fotografia, datada de janeiro de 1923, está um tanto que desgastada devido aos seus cem anos de existência, mas permite identificar a estrutura da estação Quatiguá sendo construida logo atrás do grupo de pessoas que posaram alinhadas sobre uma prancha de carga ferroviária, a reboque de uma locomotiva. Chama a atenção o grande número de crianças presentes, talvez filhos dos operários que plantavam os trilhos do Ramal Ferroviário do Paranapanema que se estendia desde Jaguariaíva , cortando o incipiente Norte Pioneiro do Paraná. Ao fundo uma exuberante mata, com árvores frondosas no que seria depois de alguns anos a área urbana de Quatiguá. Com certeza é o mais antigo registro fotográfico conhecido da Estação e de Quatiguá.rnInaugurada oficialmente, com a presença de autoridades do Governo do Estado e da própria Ferrovia, em 13 de Maio de 1923, a Estação Quatiguá deu nome ao local onde, bem próximas haviam dois pequenos aglomerados de casas, Jaboticabal e Chapada, cada um como ponto de entrada nas terras das duas grandes fazendas ou glebas, homônimas, em franco processo de loteamento. Alavancada pela chegada do Ramal do Paranapanema, possibilitando o mais moderno e eficaz meio de transporte de cargas e pessoas daquele tempo, a venda de terras nessas glebas intensificou-se com a chegada de pioneiros vindos desde São Paulo, Minas Gerais, do Paraná Tradicional e mesmo estrangeiros recém chegados.rnO nome Quatiguá, dado a Estação Férrea, derivou da “Serra do Quatigual”, maior elevação próxima dali, logo acima da nascente do Ribeirão das Perobas ou Peroba. Do seu topo podem ser observados o Vale do Rio das Cinzas até o Pico Agudo e mais além, a bacia do Rio Jacarezinho também é visível até os contrafortes das Serras da Pedra Branca e da Figueira, lá no Joá com seu conjunto de três grandes elevações. Quatigual é denominação para o coletivo de “quatiguás”, fruto do quatiguazeiro, imagina-se que havia muito dessa planta por alí.rnO local da Estação foi escolhido por ser uma grande área parcialmente plana e capaz de abrigar, além dela, o pátio de manobras, a linha secundário, o troco virador de locomotivas, um armazém de boa capacidade, pocilgas e rampas de embarque de suínos oriundos das safras desenvolvidas em toda a região. Os serros, entre os quais se destacava o do Quatigual, obrigaram a ferrovia a ser construida com um longo aclive, uma inclinação que exigia das composições que estas fossem tracionadas por locomotivas mais potentes que as usuais, quando fosse necessário. As “marias-fumaça” mais fortes ficavam estacionadas em Quatiguá onde substituíam as máquinas menores que comumente faziam o trecho até Melo Peixoto e Ourinhos, já no Estado de São Paulo.rnDesde pelo menos o ano de 1903 constava que havia ocupação e colonização de sua área urbana, segundo registros, naquele ano João Ferreira de Paiva ali se estabeleceu, provavelmente motivado pela abertura da estrada carroçável ligando Jacarezinho até Colônia Mineira. Com cerca de 82 quilometros, a estrada seguia mais ou menos o traçado da ferrovia construida 20 anos depois, desviando da atual Joaquim Távora, seguindo pela atual divisa daquele município com Quatiguá, seguia pela Vila Rural, Colônia Varsóvia até o sopé da Serra da Pedra Branca. Chamada de “Estrada Nova”, foi aberta a mando do Governo do Estado do Paraná, construida pelo engenheiro italiano Carlos Boromei, dai o nome que também recebeu, “Estrada do Boromei”, denominou também algumas da regiões por onde passava, como o “Quarenta” em Joaquim Távora e, “Vinte e Cinco” em Quatiguá, respectivamente nos quilometros 40 e 25 da estrada, contados a partir da cidade de Siqueira Campos. A chegada da Ferrovia Sorocabana em Ourinhos, a falta de manutenção, o vigor do crescimento da vegetação, longos trechos sem fontes de água, a falta de habitantes e o sertão inóspito levaram ao abandono dessa estrada, como um meio de comunicação perene, em favor da “Estrada Velha”, aberta no século XIX, ligando Tomazina, Sapé, Barra Grande ou Barra Velha, Santo Antonio da Platina até Jacarezinho.rnSomente com o estabelecimento da Ferrovia em 1923, que a ocupação ganharia maior força e vigor no que viria a ser Quatiguá. A estação iria fomentar o crescimento populacional, o desbravamento do sertão e a produção agrícola e pecuária com vistas ao mercado consumidor dos grandes centros. Produzia-se suínos pelo sistema de safras, plantava-se tabaco, algodão, café, batata e gêneros de subsistência.rnO Ramal do Paranapanema, começou a tomar forma a com a edição em 07 de março de 1901, do Decreto nº 3.947, pelo Governo Federal. O documento autorizou a ligação ferroviária entre as estradas de ferro “São Paulo – Rio Grande” e “Sorocabana”, esta via se estenderia de Jaguariaíva, no Paraná, até Salto Grande, em São Paulo, passando por Jacarezinho e cortando o Norte Pioneiro. A construção do Ramal foi iniciada em 1912, partindo de Jaguariaíva e levaria 18 anos até atingir Jacarezinho em 1930 e mais algum tempo até chegar a Melo Peixoto. Houve falta de empenho do Governo Federal em concluir a construção ou mesmo em pressionar a Companhia dona da Ferrovia para o seu término. A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), provocou a falta de trilhos, material rodante e equipamentos, materiais de construção, explosivos para a detonação de rochas no leito da estrada em construção, etc. Essa carência de produtos importados, iria predominar pelo menos até 1920, quando houve a normalização do abastecimento. As obras foram executadas pela “Companhia Brasileira Industrial e Construtora”. Mesmo com os problemas verificados os trilhos chegaram a Calógeras em 1918 e, a Wenceslau Braz no ano seguinte. Em 1919 o Ramal atingiu Barbosas e Colônia Mineira que deveria ter sido, não fosse o projeto original alterado, a estação final do trajeto construido. Em 1922 teve inicio a construção do Ramal do Rio do Peixe ligando Wenceslau Braz até Ibaiti e Figueira.rnrnrnInauguração da Estação Ferroviária em 13 de maio de 1923rnEm 13 de maio de 1923, um domingo, foi inaugurada a Estação Quatiguá e o trecho entre ela e a de Colônia Mineira (Siqueira Campos). Diversas autoridades federais da área de transportes, do Governo do Estado do Paraná, engenheiros, administradores da Ferrovia São Paulo – Rio Grande e, também o Reitor da Universidade do Paraná Victor do Amaral, em sua maioria vindos desde Curitiba em um trem especial.rnrnO povoado herdou o nome da Estação e cresceu no seu entorno e do grande terreno retangular pertencente à Ferrovia, com o seu arruamento traçado a partir dele. Já em 1923 foi instalada uma escola primária “mixta”, conforme os termos da época, para atender meninos e meninas. Romário Martins, historiador paranaense de destaque, passou por Quatiguá em 1924 e registrou o funcionamento de um hotel familiar, deixou também um jocoso comentário de que o povoado, se tivesse algum progresso, ele iria levar muito tempo. rnEm 1930 a Estação Quatiguá foi disputada por revolucionários, vindos do Rio Grande do Sul, e tropas paulistas, da Força Pública ou Policia Militar em sua maioria. Um combate travado em dois dias, 12 e 13 de outubro daquele ano, que contou com uso de artilharia com oito canhões, muitas metralhadoras pesadas, inclusive com duas delas instaladas em uma plataforma construida no telhado da Estação. Os gaúchos venceram a batalha, ganharam a guerra, derrubaram o Presidente da República e alçaram Getúlio Vargas ao poder por mais de 15 anos.rnA ferrovia sempre necessitou de pessoal qualificado e especializado para as suas múltiplas funções, quer fossem administrativas ou diretamente operacionais. De uma forma geral, naqueles povoados incipientes e que se tornariam cidades, sedes de municípios e de comarcas, a elite intelectual e educada destes locais era formada pelo professor regente da escola primária, o farmacêutico que muitas vezes atuava como medico, o dentista prático, logicamente o padre quando o havia, o tenente do Regimento de Segurança e, indelevelmente, os funcionários lotados na Estação Férrea e o seu Chefe, o mais qualificado de todos. O pessoal ferroviário englobava desde o Chefe da Estação, o telegrafista, eletricistas, ferreiros, soldadores, mecânicos, eletricistas, operários, maquinistas, foguistas, guarda-chaves, sinaleiros, manobristas, ensacadores, etc. O primeiro prefeito de Quatiguá, Orlando Athayde Bittencourt, consta ter sido ferroviário.rnA “Ferrovia São Paulo – Rio Grande” operou o Ramal do Paranapanema até o ano de 1942 quando foi substituída pela “Rede de Viação Paraná – Santa Catarina” que, em 1957 foi emcampada pela “Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima”. Essa Companhia desde a sua criação deixava claro que seu objetivo era o transporte de cargas e não de passageiros, desta forma a Estação Quatiguá deixou de operar com passageiros no ano de 1979. A Rede Ferroviária Federal teve as suas funções assumidas, em 1997, pela empresa América Latina Logistica (ALL). Em 2001 a ALL suspendeu o tráfego de comboios de carga pelo Ramal do Paranapanema, já praticamente descaracterizado e abandonado, quase sem edificações.rnA Estação Férrea de Quatiguá foi demolida no ano de 1985, operários da Prefeitura do Município foram incumbidos disso, muitas das suas tábuas foram usadas usadas para fazer as caixas e formas para receber o concreto na construção da Estação Rodoviária da cidade. O armazem da Ferrovia, edificado em alvenaria, foi demolido na década seguinte, nada mais dele restando. A rede elétrica e telegráfica que acompanhava a ferrovia, com postes feitos de trilhos, foi saqueada. rnSão cem anos de história em Quatiguá, lembrar e recorda-la é preciso!rnrnrnDr Roberto Bondarik é Docente e Pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Cornélio ProcópiornÉ o maior pesquisador da rica história da cidade de Quatiguá que teve em suas terras a principal batalha da Revolução de 1930, onde guerrearam rebeldes gaúchos e militares do estado de São Paulo.rnEsteve recentemente ministrando brilhante aula no Colégio João Marques da Silveira em projeto da professora Letícia Aparecida CândidornrnrnrnrnrnrnrnrnProfessor Doutor Roberto Bondarik, rnrnProfessor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Campus Cornélio Procópio, desde 1995;rnDoutor em Engenharia de Produção (CAPES-Conceito 5), pela UTFPR (2018), Mestre em Engenharia de Produção (CAPES-Conceito 5), pela UTFPR (2007); rnGraduado e Licenciado em História e Geografia pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho, Paraná (1991), atual Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP);rnMembro da Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC); da Associação Paranaense de Engenharia de Produção (APREPRO);rnSócio instituidor da Fundação de Apoio à Educação, Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico da UTFPR (FUNTEF), e;rnMembro da Academia de Letras, Artes e Ciências de Cornélio Procópio, Paraná (ALLACOP), ocupando a cadeira de número 03; rnMembro, em Cornélio Procópio, do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência; rnPossui como áreas de atuação: História, Educação, Sociologia, Ensino-Aprendizagem, Ciência, Tecnologia, Engenharia de Produção e, Empreendedorismo.rnrn
Fonte: Texto e acervo de Roberto Bondarik

























