Nove anos após o crime que terminou com a morte de Adinan de Oliveira, um caso que parecia encerrado na Justiça ganhou um novo e decisivo desfecho. Condenado inicialmente a pouco mais de quatro anos de prisão, o ex-policial militar Marcos Barbosa Dornelas voltou ao banco dos réus na última quinta-feira (13) e, desta vez, deixou o Tribunal do Júri de Wenceslau Braz condenado a 18 anos e nove meses de prisão por homicídio duplamente qualificado.
O crime aconteceu na madrugada de 17 de junho de 2017. Adinan, que na época tinha 30 anos, estava com amigos em um bar de Santana do Itararé, onde acontecia um show. Marcos, que na época era Policial Militar no estado de São Paulo, também estava no local, acompanhado do tio Gilmar Camargos Sena e de outras pessoas. Foi durante a festa que começou o desentendimento que, horas depois, terminaria em agressões brutais e resultaria na morte de Adinan.

Segundo José Guimarães de Almeida Netto, advogado que representou a família neste novo júri, o ciúme esteve por trás da confusão. Marcos havia mantido um relacionamento com A.C.P, mas os dois já estavam separados. Depois do término, Adinan também chegou a se envolver com A., embora os dois também já não mantivessem um relacionamento na época do crime.
Naquela noite, A. também estava no bar e participava de um brinde com amigos, entre eles Adinan. Em determinado momento, Marcos teria se aproximado e gritado algo para Adinan. Conforme relatado pelo advogado, o jovem apenas cobrou respeito e voltou a confraternizar com os amigos. Aquele teria sido o primeiro atrito entre os dois. Depois do episódio, Marcos deixou o local.
Horas depois, já entre 02h e 03h, Marcos teria voltado a se encontrar com Adinan próximo à praça da cidade, onde uma nova discussão começou. Conforme consta no processo, Gilmar já havia deixado o local da festa quando recebeu uma ligação de Marcos pedindo que retornasse para buscá-lo. Em interrogatório, Gilmar afirmou que Marcos fez a ligação porque acreditava que Adinan queria arrumar uma confusão e, por isso, preferia ir embora.
No entanto, segundo José Netto, testemunhas ouvidas no processo apresentaram uma versão diferente sobre aquele momento. Conforme os relatos citados pelo advogado, teria sido Marcos a iniciar a nova discussão. A situação, no entanto, teria sido pacificada pelo próprio Adinan.
Foi neste momento que Gilmar retornou ao local de carro. Conforme a acusação, ele desceu do veículo e entrou na confusão, dando início às agressões físicas contra Adinan. Segundo Netto, uma testemunha ocular relatou que Gilmar atingiu a vítima cinco vezes. Na sequência, Marcos também teria partido para as agressões.
“As testemunhas contaram que Adinan chegou a implorar para que as agressões parassem. Foi uma sessão de espancamento que durou durante 30 metros. Ele tentou correr, mas não conseguiu”, explicou o advogado em entrevista com a Folha.
Netto ainda afirmou que o laudo apontou ferimentos provocados por objeto contundente. “Ele ficou com os olhos saltados, a testa afundada e os olhos roxos. Ninguém conseguia reconhecer ele”, relatou ao descrever o estado em que Adinan chegou ao hospital.
Nos interrogatórios judiciais, Marcos e Gilmar negaram o espancamento e apresentaram versões semelhantes. Gilmar afirmou que apenas empurrou Adinan, enquanto Marcos admitiu a troca de socos, mas alegou ter agido em defesa após ser atingido primeiro. Ambos sustentaram que as graves lesões ocorreram quando Adinan correu, tropeçou e bateu a cabeça na guia da praça.
Após a ocorrência, Adinan foi atendido em Santana do Itararé, transferido para a Santa Casa de Jacarezinho, e posteriormente levado ao Hospital do Rocio, em Campo Largo. Ele permaneceu hospitalizado durante 11 dias e, segundo Netto, sofreu três paradas cardíacas no dia em que morreu.
Marcos e Gilmar foram julgados pela primeira vez em outubro de 2019. Gilmar foi condenado por homicídio qualificado e permaneceu preso, onde posteriormente cometeu suicídio. Já Marcos foi condenado por lesão corporal seguida de morte a pouco mais de quatro anos e, como já havia cumprido cerca de dois anos preventivamente, deixou o júri em regime aberto.
O Ministério Público recorreu da primeira decisão e o caso chegou ao STJ, que determinou a realização de um novo júri neste ano. Na última quinta-feira (13), Marcos foi condenado por homicídio qualificado por motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima, recebendo pena de 18 anos e nove meses. Com o desconto dos dois anos, quatro meses e seis dias já cumpridos, restam 16 anos, quatro meses e 24 dias de prisão em regime fechado, com início imediato do cumprimento da pena.
“Depois de 16 horas de júri, saímos do plenário com a sensação de dever cumprido e, acima de tudo, com a certeza de que valeu a pena acreditar na Justiça. Foram nove anos em que essa família carregou a dor da perda e conviveu com a incerteza da impunidade. Essa decisão não traz o Adinan de volta e não apaga a saudade, mas traz uma resposta que conforta o coração da família. Hoje, a sensação de impunidade deixou de existir”, afirmou José Guimarães de Almeida Netto.
Por Folha extra

























