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Eleições na Argentina marcam fim do estilo Kirchner de governar

Seja quem for o presidente eleito da Argentina neste domingo, o governista Daniel Scioli, da Frente Para a Vitória (FPV), ou o opositor Maurício Macri, da coalizão Cambiemos (Mudemos), haverá um novo estilo de governar diferente do que foi implementado nos 12 anos de kirchnerismo (2003-2015), segundo políticos, analistas e eleitores ouvidos pela BBC Brasil.rnOs próprios candidatos sinalizaram que, se forem eleitos, vão buscar comandar o país com um estilo diferente do atual.rn”Somos do diálogo. E não viemos mostrar que temos razão. E se errarmos, vamos corrigir os erros, trabalhamos em equipe”, repetiu Macri durante a campanha. “Na minha gestão, cada poder terá seu papel. Presidência é Presidência, Justiça é Justiça, Congresso é Congresso e imprensa é imprensa”, disse Scioli.rnA falta de diálogo e de independência dos poderes costuma ser apontada pelos críticos do Kirchnerismo.rnrnrnOs Kirchner não são dados ao diálogo. E os dois presidenciáveis simJorge Giacobbe, analista da consultoria Giacobbe e Associados.rnrnrnFilhos de empresários e amigos de longa data, Scioli e Macri entraram na política na vida adulta e são, segundo conhecidos, “pessoas de diálogo” com diferentes setores ─ um estilo diferente do impresso pelo ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010, e por sua sucessora e viúva, Cristina.rn”A confrontação de ideias e de interesses faz parte da política, mas os Kirchner fizeram da confrontação permanente a sua própria identidade. Scioli e Macri têm outro estilo. Os Kirchner não são dados ao diálogo. E os dois presidenciáveis sim”, disse à BBC Brasil o analista Jorge Giacobbe, da consultoria Giacobbe e Associados.rnImage copyrightBBC BrasilImage captionAgustín Murguia e Ezequiel Villarroel afirmam votar em Macri por cansaço do estilo kirchneristarnAssessores diretos dos dois candidatos concordam que a eleição marcará o “fim de uma era”.rn”Cada governo representa uma etapa”, disse o assessor de Scioli, o economista e cientista político Gustavo Marangoni, presidente do banco Província.rnPara Diego Guelar, assessor de Macri e ex-embaixador da Argentina no Brasil e nos Estados Unidos, os governos “personalistas que fazem parte de uma conjuntura” e “não têm história e trajetória desaparecem”, disse, quando seus líderes concluem seus mandatos.rnrnKirchnerismornImage copyrightGettyImage captionArgentinos vão às urnas neste domingo escolher quem vai comandar o país pelos próximos quatro anosrnA opinião de Guelar, de Giacobbe, e de historiadores argentinos é a de que o Kirchnerismo nasceu logo após a histórica crise que o país enfrentou em dezembro de 2001, com as sucessivas quedas de vários presidentes e panelaços nas ruas.rn”O Kirchnerismo cobriu o vazio de poder depois daquela imensa crise e governaram 12 anos com o que chamamos aqui de relato, o discurso de fachada”, disse Guelar.rnMostrar-se “fraco” naquele momento de crise era o menos recomendado em um país que estava “com os nervos à flor da pele”, como disse um Kirchnerista.rnrnrnO Kirchnerismo cobriu o vazio de poder depois daquela imensa crise e governaram 12 anos com o que chamamos aqui de relato, o discurso de fachadaDiego Guelar, assessor de Macri e ex-embaixador da Argentina no Brasil e nos EUArnrnrnPassados 12 anos, cerca de 30 milhões de eleitores vão às urnas neste inédito segundo turno em uma votação que promete ser tranquila e com a presidente Cristina Kirchner passando a faixa presidencial no dia 10 de dezembro, sem caos nas ruas, como observou a analista Analía del Franco, da consultoria política Analogías.rnAnalía e Raul Aragón, analista político da empresa que leva seu nome, disseram, em entrevista aos correspondentes estrangeiros, que uma das principais demandas dos eleitores é a de “mudança de estilo” de governo e “não por questões econômicas ou sociais”.rn”Não há desespero nas ruas, o desemprego não é alto e há consumo e a transição promete ser tranquila com a presidente passando a faixa presidencial no dia dez de dezembro”, afirmou Analía.rnrnOposição participativarnImage copyrightAPImage captionSegundo analistas, oposição voltará a ter papel participativo na política argentinarnNo mesmo dia 10 de dezembro, Scioli conclui seu mandato de governador da província de Buenos Aires e Macri, por sua vez, o de prefeito da cidade de Buenos Aires.rnUm dos dois se tornará presidente e ao outro caberá o papel de líder da oposição.rn”Essa será outra mudança. A oposição, seja liderada por Macri ou por Scioli, terá papel participativo na política argentina. Papel que hoje não existe”, disse um assessor de Scioli, sob a condição do anonimato.rnPara Del Franco e Aragón, o Kirchnerismo terá presença no Congresso Nacional e deverá se mantido por “um setor mais a esquerda”, apesar de não ter esperado o papel de destaque de agora.rnNa reta final da campanha, porém, Scioli foi visto, por alguns analistas, como Pablo Knopoff, da consultoria Isonomía, “como mais kirchnerista que nunca” pelas acusações ao adversário. Scioli disse que Macri fará “pactos com o diabo” ─ o “diabo” nesse caso, segundo a imprensa argentina, seria o FMI (Fundo Monetário Internacional).rnArrogante x trabalhadorrnImage copyrightGuillermo Viana e Juan Vargas l AFPImage captionConhecidos dizem que ambos os candidatos são “abertos ao diálogo”rnScioli disse ainda que esta eleição será entre “um arrogante do Barrio Parque”, um dos mais caros de Buenos Aires, e um “trabalhador”.rnA declaração foi vista com simpatia por seus eleitores e criticada pelos seguidores de Macri. “Melhor Scioli porque não quero um arrogante do Barrio Parque”, escreveu um eleitor no Twitter. Outro rebateu: “Prefiro esse arrogante”.rnQuando questionado se as críticas de Scioli afetavam a amizade dos dois, Macri respondeu apenas: “Daniel está muito diferente”.rnSegundo pesquisas de opinião, Macri lideraria os levantamentos de intenção de votos. Mas os cerca de 11% de indecisos poderiam definir a eleição.rnNas ruas de Buenos Aires, eleitores contaram à BBC Brasil por que votam em Macri, em Scioli ou em branco.rn”Eu voto em Macri porque me sinto mais representada por ele. Eu cansei desse governo”, disse a estudante de direito Melina González, de 19 anos. O namorado dela, Sebastián Gimenez, também de 19 anos, que estuda economia, disse que votará em branco porque acha que os dois candidatos são “conservadores principalmente na área econômica”.rnImage copyrightBBC BrasilImage captionMelina González, vai votar em Macri enquanto seu namorado, Sebastián Gimenez, optará pelo voto em brancornEstudantes adolescentes Lucila Leguina Díaz, de 15 anos, e Juliana Cano, de 14 anos, faziam campanha contra Macri nos parques de Palermo, bairro de classe média. Elas, que ainda não podem votar, seguravam um pôster do opositor em que se lia “Não vote em Macri”.rn”O partido de Macri votou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e nós estamos no século 21 e achamos que cada um tem o direito a fazer suas escolhas. Não que eu goste de Scioli, mas ele é do partido de Cristina”, disse Lucila à BBC Brasil.rnJá o taxista Juan Avellana, de 68 anos, afirmou que votará em Scioli porque “prefiro tudo como está do que ter surpresas como ajustes”.rnEm sintonia com o que dizem analistas, segundo Agustín Murguía, de 27 anos, e Ezequiel Villarroel, de 31 anos, o voto em Macri é principalmente por “cansaço” do estilo Kirchnerista.rn”Eles dividiram o país. Eles não gostam de quem pensa diferente. E se Scioli for eleito o Kirchnerismo vai continuar existindo”, disse Murguía.rnNo mercado financeiro, o dólar paralelo recuou e a bolsa de valores registrou alta nos últimos dias, devido à expectativa de mudança “do ambiente político seja quem for o eleito”.rnO deputado opositor Claudio Lozano, da Unidade Popular, que se define de esquerda, disse que “termina um ciclo” que começou após a crise de 2001, mas Scioli e Macri não o representam por serem “igualmente conservadores”.

Fonte: BBC

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