A gastronomia tem hoje, provavelmente, o mesmo peso que atribuímos aos concertos ou às exposições de arte. Sem exagero e do mesmo modo, tanto quanto “parecer” intelectual tinha e tem algum apelo em determinados nichos sociais, ser “entendido” em artes da cozinha e do serviço do vinho, por exemplo, também é um elemento de distinção social.rnIngredientes ou produtos têm sido requalificados como gourmet. Veja o caso de marcadores culturais como a cachaça, que ganha distinção com o selo de premium e deixa de ser associada apenas aos consumidores mais populares. De forma análoga, frequentar determinado restaurante, pagar por isso, observar quem o frequenta e, principalmente, ser visto, é uma experiência de significado muito semelhante ao de ir a uma ópera no século 19.rnO lado risível desse processo é a necessidade de muitos em estabelecer a diferença. Por exemplo, o consumo dos produtos da terra não é enaltecido pelos seus valores intrínsecos, como tradição, história ou território – ou terroir, se preferir -, mas por atributos que podem nos distinguir perante a outros consumidores.rnA indústria parece ter percebido isso muito rapidamente, destacando determinadas qualidades (legítimas ou não), mas sempre mirando a sanha de consumidores ávidos por se destacarem em seu meio social. Muitas vezes, pelo consumo de produtos que se autodenominam gourmet.rnOutros víveres apontam para o “comfort food” de forma exagerada. Pipocas e brigadeiros, que sempre tiveram espaço em nossa memória afetiva, agora são gourmets e marcam presença em festas vips. rnO consumo dos produtos da terra não é enaltecido por valores como tradição, história ou território, mas por atributos que podem nos distinguir perante a outros consumidoresSandro Dias, professor de Gastronomia no Senac, sobre o uso da comida como diferenciação social
Fonte: Sandro Dias para Uol

























